Síndrome do impostor no empreendedorismo: o que fazer

Síndrome do impostor no empreendedorismo é aquela voz que aparece quando você vai dizer o preço, gravar o vídeo, mandar a proposta: quem sou eu para fazer isso? E se descobrirem que eu não sei tudo?
Ela não é sinal de despreparo. Costuma aparecer justamente em quem se importa com a qualidade do que entrega. Mas ela cobra caro em decisão adiada, e é sobre isso que eu quero falar aqui.
Por que trabalhar sozinha alimenta essa voz
Dentro de uma empresa existe retorno externo o tempo todo. Alguém elogia, alguém corrige, alguém decide junto. Mesmo o retorno ruim organiza a leitura que você faz de si.
Sozinha, esse espelho some. A conta que sobra é feita só por você, e a nossa cabeça tem preferência clara pelo que deu errado. Você lembra do cliente que sumiu, não dos doze que voltaram.
Junta a isso o acúmulo de papéis. Você é quem entrega, quem vende, quem cobra, quem organiza. É estatisticamente garantido que em algum desses papéis você seja iniciante. A confusão acontece aqui: ser iniciante numa função vira, na cabeça, a prova de que você não deveria estar fazendo nada disso.
Os disfarces da autocobrança
A psicóloga Valerie Young descreveu perfis diferentes de autocobrança extrema. Três aparecem muito em quem empreende sozinha.
O perfeccionista. Se não ficou impecável, foi fracasso. Costuma adiar lançamento porque nunca está pronto.
O solista. Pedir ajuda, contratar alguém ou delegar parece confissão de incompetência. Acredita que precisa dar conta sozinha para ter valor.
O especialista. Mede o próprio valor em cursos e leituras. Sente que nunca sabe o suficiente para começar a vender ou para aumentar o preço.
Não é diagnóstico, é espelho. Serve para reconhecer o padrão quando ele aparece, e reconhecer já muda o que você faz em seguida.
O rótulo que a gente carrega
Tem um livro de ficção científica, "Projeto Hail Mary", do Andy Weir, com uma imagem que eu acho preciosa para isso.
O protagonista se descreve como um professor de ciências comum, e usa essa descrição para explicar por que não daria conta da missão enorme que cai no colo dele. Mais adiante, por circunstâncias da história, ele perde a memória e continua precisando resolver os problemas. Sem lembrar que era "apenas um professor", ele resolve.
O que sai de cena não é a competência, é o rótulo. E é isso que acontece com a gente: "eu não sou boa com números", "eu não sou de vender", "eu não sou de tecnologia" quase nunca são descrições de fato. São identidades confortáveis, que protegem do desconforto de aprender.
A frase honesta quase sempre é outra: eu ainda não aprendi isso. Que é completamente diferente de eu não sou capaz disso.
Três coisas que ajudam de verdade
Uma caixa de vitórias. Uma pasta no computador, ou uma conversa no WhatsApp com você mesma, onde você guarda print de cliente agradecendo, resultado que deu certo, mensagem boa que recebeu. Quando a voz aparecer, você abre e lê fato, não memória. Memória é tendenciosa, print não.
Trocar fingir por aprender em público. Você não precisa saber tudo para começar a atender. Dá para dizer com tranquilidade: isso aqui eu faço muito bem, isso aqui eu estou estudando. Cliente confia mais nisso do que em quem finge saber tudo.
Falar com quem está na mesma estrada. A dúvida cresce no escuro. Quando você descobre que a pessoa que você admira também congela na hora de mandar o orçamento, a sua dúvida volta ao tamanho real. Foi por isso que eu procurei gente, e não mais um curso.
O que eu faria hoje se a voz aparecesse
Primeiro, eu não esperaria ela sumir. Ela não some, ela diminui de volume conforme você acumula prova do contrário.
Segundo, eu perguntaria: isso que eu estou chamando de incapacidade é falta de habilidade ou é falta de prática? Falta de habilidade se estuda. Falta de prática se resolve fazendo, com o coração acelerado.
Terceiro, eu faria a coisa em versão pequena. Mandar o orçamento para um cliente, não reformular a tabela de preços inteira. Gravar um vídeo de dois minutos, não montar um canal.
E quarto, eu contaria para alguém que fiz. Dito em voz alta, o feito vira fato, e é assim que a caixa de vitórias enche.
Se você está sentindo isso agora, no meio de uma decisão, vale lembrar que sentir dúvida não é prova de que você está no lugar errado. Às vezes é só prova de que você está fazendo algo que importa para você.
E se quiser passar por isso com gente do lado, em vez de sozinha na frente da tela, temos uma trilha toda sobre isso na comunidade.
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Ana Bueno
Empreendedora e fundadora da Comunidade Supernova. Dezessete anos de estratégia no corporativo antes de atravessar para o empreender.


